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Dia Mundial da Saúde Mental

10 de outubro, 2025

Quando o trabalho consome e quando inspira: caminhos para a saúde mental

O outono marca o regresso à rotina, ao trânsito, aos e-mails acumulados e às reuniões intermináveis. Para muitos, a “reentrée” depois das férias desperta energia renovada; para outros, é mais um capítulo de exaustão e de sensação de estar preso num ciclo que consome mais do que devolve. É, portanto, um momento oportuno para refletir sobre a relação entre o trabalho e a saúde mental.

Nas últimas décadas, o trabalho deixou de ser apenas meio de subsistência. Tornou-se espaço de identidade, reconhecimento e realização pessoal. Ao mesmo tempo, a pressão pela produtividade, a competitividade exacerbada e a cultura do “estar sempre disponível” criaram terreno fértil para o burnout, hoje reconhecido pela Organização Mundial de Saúde como fenómeno ocupacional.

O burnout não é apenas cansaço extremo. É um estado de esgotamento físico e emocional, acompanhado de despersonalização e perda de sentido. Surge quando as exigências do trabalho ultrapassam de forma persistente os recursos internos do indivíduo, e quando a sensação de propósito se perde na rotina automática e na sobrecarga horária. Os números em Portugal e no mundo apontam para uma prevalência crescente, sobretudo em setores como a saúde, a educação e os serviços. Não deixa de ser curioso que, apesar de nunca termos tido tanta e tão eficaz tecnologia ao nosso dispor para nos auxiliar nas mais variadas tarefas e melhorar a nossa eficiência, a exaustão e a sobrecarga continuam a grassar.

Mas falar de saúde mental no trabalho não é apenas falar de doença. É também reconhecer o papel fundamental do propósito. Os trabalhadores que percebem o seu trabalho como significativo revelam maior resiliência ao stress, melhor desempenho e maior satisfação de vida. O propósito funciona como bússola: não elimina as dificuldades, mas dá-lhes sentido.

Importa pensar em medidas abrangentes que proporcionem um melhor equilíbrio entre vida pessoale profissional: horários mais flexíveis, direito à desconexão, valorização do descanso. Esses esforços ganham verdadeira força quando acompanhados de mudanças culturais dentro das organizações, com lideranças empáticas, gestão humanizada e políticas que coloquem o bem-estar dos trabalhadores no centro.

Nesta “reentrée”, cada um de nós pode também fazer um exercício de introspeção e autoconhecimento: o meu trabalho aproxima-me ou afasta-me de quem sou? Alimenta ou drena a minha energiavital? Encontro nele apenas obrigação ou também significado? Não se trata de romantizar o trabalho — haverá sempre tarefas rotineiras e desgastantes —, mas de cultivar espaços onde o esforço se transforma em valor partilhado, onde a contribuição individual encontra reconhecimento e sentido coletivo.

O futuro da saúde mental no trabalho dependerá desta dupla atenção: prevenir o burnout através de limites claros, descanso verdadeiro e ambientes saudáveis; e, ao mesmo tempo, resgatar o propósito como antídoto contra a alienação.

Neste Dia da Saúde Mental — e neste regresso após as férias — que possamos trabalhar não apenas para produzir, mas para viver. Que o trabalho seja espaço de crescimento, e não de esgotamento. Que, entre burnout e propósito, escolhamos o caminho que preserva a mente e dá sentido à vida.

 

Dra. Joana Crawford

Equipa Psiquiatria, CNS – Campus Neurológico